O verbo
sem escrita
não (me) conjuga.
Pedro Lucas caminhava numa praça de seu bairro, onde viu uma jovem sentada sobre a grama. Junto dela, um livro.
Curioso, quis saber o que lia. Aproximou-se devagar, olhando para o céu, disfarçando o interesse.
O que as palavras daquele livro diziam pra ela? Era a pergunta que Pedro Lucas se fazia.
O semblante da jovem era sereno e ao mesmo tempo perturbador... Ora, sorria; ora, enrugava a testa; ora, parecia esboçar um choro.
Já perto, foi surpreendido com uma indagação:
- Você sabe ler?
Pedro, de início, ficou sem fala... Não queria ser notado... Desejava ler o título do livro. Depois, ir embora.
- Sei - respondeu (pela idade, como poderia pensar que não soubesse?).
Ela, animada, ficou de pé, e disse:
- Você pode dizer o que está escrito aqui?
Sem entender, Pedro Lucas segurou o livro. Tinha um trecho que estava sublinhado.
Antes, perguntou o nome dela.
- Betânia... Pode me chamar de Bê mesmo!
Ajeitou os óculos, colocou o livro diante de si, segurou com firmeza e leu o que estava grifado:
- "...por dentro ainda sou a menina que se assusta ou diverte com qualquer bobagem que outros nem percebem, entretidos que estão com assuntos mais importantes".
O texto era de Lya Luft, da obra "O rio do meio".
Bê abriu um sorriso largo e sentenciou:
- Não estou mais sozinha! Você é como eu!
Pedro Lucas sorriu alto. Nunca tinha feito isso em público!
Pela primeira vez, olhou pra si com imensa ternura e aceitação.
Não era um tolo. Escolheu ser feliz.
(Fátima Nascimento)
Naquela ocasião, a ideia que se tinha era de que quando esta época chegasse, estaríamos mais espaciais (no sentido de transporte no espaço aéreo mesmo) e que a alimentação se daria muito em cápsulas.
Muitos destes pensamentos tinham relação com desenhos animados futuristas que assistíamos, como "Os Jetsons" (imagem).
Eu me lembro que um de meus desejos era ter uma televisão na palma da mão. E veio o celular com uma tecnologia que nos permite estarmos 24 horas conectados a imagens e sons.
Nós poderíamos estar muito felizes com tantos avanços! Mas não é bem assim... A miséria segue em similar proporção. Muita gente ainda sente fome, frio, calor em excesso... morre e mata. Tanta ganância.
No livro "Ética da vida" (Editora Letra Viva/2000, fl. 137), Leonardo Boff (teólogo) destacou uma fala do cacique americano Seattel: "Quando a última árvore for abatida, quando o último rio for envenenado, quando o último peixe for capturado, somente então nos daremos conta de que não se pode comer dinheiro".
Alerta antigo e tão oportuno!
Dez anos depois, eu me reencontrei com o homem do sinal.
Onde? No mesmo semáforo de antigamente, esquina da Barão de Miracema com a movimentada Avenida 28 de Março.
Naquele dia, domingo 27, estava sozinha no carro.
Ele estava só, sentado no meio fio.
Quando vi que era ele, abaixei o vidro.
Ele se levantou com a destreza de quem há anos equilibra a vida sobre uma perna.
O homem do sinal sorriu o sorriso de outrora, reconhecendo-me.
- Você está com o rosto mais cheio! - ele me disse, elegantemente.
Em seguida, sem reservas, perguntou se eu havia votado em Wladimir; se tinha filhos, recomendou que eu adote uma criança... Se eu continuava em jornal... Falou que o Monitor Campista (jornal centenário que foi fechado) deveria voltar a circular...
Entre o vermelho e o verde do sinal, aquele homem conversou amistosamente.
Na sua lembrança, destacou que certa vez dei a ele uma caixa de halls para venda.
Dez anos depois, um gesto simples ainda nutria nele a esperança.
A moeda não era o principal.
Naquela rápida conversa, ao final, ele disse, "não deixe de ter bom humor!".
Dei a partida. E segui.
A história pode ser bonita. A conversa foi amistosa.
Mas nada tira a certeza de que o homem do sinal sobrevive.
E precisa viver.
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Veja, abaixo, o texto que escrevi há 10 anos.
O homem do sinal
E também tem uma crônica em que mencionei o homem do sinal. Veja aqui.
r e s í d u o s há em todos. não se dissipa a dor (ressignifica-se).