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09 março 2015

Mulher: novas e velhas batalhas

Não desejo falar de flores, mas expressar um sentimento de inquietação. As mulheres que tanto batalharam pela liberdade de expressão, valorização no mercado de trabalho, pelo direito de voto e de serem votadas, na atualidade colocam algemas em si. A mulher torna-se escrava de padrões estéticos e de pensamentos pensados por outras pessoas, sem questionar.

O erotismo está presente em novelas e na vida real. A mulher permite-se vulgarizar e ser objeto. Ficam satisfeitas quando têm a entrada franqueada em casas noturnas, sendo “iscas” para atrair fregueses e ficam embriagadas com doses mais baixas de álcool. Daí, em alguns lugares, o ingresso delas ser autorizado antes do acesso dos homens, pois, quando eles chegam, elas estão alcoolizadas.

A mulher adere à moda, mesmo que a roupa não lhe seja apropriada. Não quer parecer démodé. Olha-se no espelho e nota que o tempo escreve por meio de linhas. Vaidosa e orgulhosa, inicia processo de deformação de seu rosto.

Mães vestem suas pequeníssimas meninas como uma mocinha em miniatura. A consequência é a exaltação à vaidade e sensualidade precoce. Quanto aos meninos, têm a chance de educá-los para que sejam maridos respeitosos e participativos no lar, mas se omitem.

Peço desculpas se as palavras nada têm a ver com você. Porém, quantas mulheres conhece? O “Dia Internacional da Mulher“ lembra-nos que a vitória só é alcançada por quem sabe o propósito da luta. Outras batalhas precisam ser vencidas. O período de alistamento está aberto. E por tempo indeterminado.


Fátima Nascimento

30 março 2013

Malhação moderna no Sábado de Aleluia


Fátima Nascimento

Duas e quarenta da tarde. Garoa fina. Como não sou de papel e nem de açúcar, coloquei a bicicleta na rua e saí a pedalar pelo bairro, exercitando-me. Sabemos que podemos presenciar transtornos no trânsito, testemunhar alguma discussão acalorada ou ainda ver pessoas famintas de comida e de atenção de governantes e o antagonismo entre casebres humildes e casas.

Segui rua adiante e entrei à esquerda do primeiro cruzamento. Agora na ciclovia e sem o incômodo de pedalar sobre paralelepípedos. Cinquenta metros mais e uma parada. O inesperado diante de mim. Acontece todos os dias, eu sei. Mas não imaginei a cena numa tranquila pedalada vespertina no Sábado de Aleluia.

“Foi atropelamento?”, perguntei a um ciclista. Ele disse: “Não, foi assassinato. Dois tiros”. Um senhor também parou na ciclovia e, ao ouvir a resposta dada a mim, comentou: “Aconteceu, não se pode fazer mais nada”, e seguiu.

Passei quatro vezes no local do crime, sempre na ciclovia. Vi a ambulância do Corpo de Bombeiros chegar. Os homens cobrirem, na calçada, o corpo com saco plástico. A polícia parar. Amontoar cada vez mais pessoas. Quem atirou? Por quê?

Webjornais noticiam ter a ver com tráfico de drogas, que foram encontradas pedras de crack na roupa do jovem de 29 anos, que alguém teria atirado contra ele de dentro de um carro e que o rapaz estava numa bicicleta.

Aberta a janela da memória. A primeira vez que presenciei alguém alvejado a tiros foi no começo da década de 90. Um homem em um barraco, sobre a cama e um cachorro sentado ao lado do corpo. Assim foi a minha estreia na televisão. Fiz um texto policial com alguma poesia. Uma cena inesquecível! Outras estão no palco das lembranças neste momento. Tristes.

Eu poderia ter encontrado um boneco de pano ou palha no chão, malhado, em protesto à traição de Judas Iscariotes a Jesus Cristo. Afinal, é uma das tradições do “Sábado de Aleluia”! Mas o que encontrei foi um homem de carne e osso, sem vida, na calçada de uma movimentada avenida.

Voltei pra casa. E o céu ainda chorava.
  

20 janeiro 2013

Tumor na alma

Cheiro forte. Odor ruim. Uma casa fechada. Ninguém atendeu. Polícia chamada. Suspeita comprovada: um corpo humano apodrecia lá dentro. Li a notícia no jornal. Tratava-se de um homem de pouco mais de 50 anos de idade e que eu conhecia há mais de 20 anos. Nosso contato, entretanto, era pouco frequente. E quando acontecia era por questões profissionais: eu na função de jornalista e ele na de artista plástico. Mas há muitíssimo tempo não o via, especialmente porque não labuto na imprensa diária desde 2002.

Imaginei há quanto tempo aquele homem deveria estar já sem vida ou sem ninguém por perto pra acudi-lo. Último capítulo triste na história de quem colocou sua arte em quadros e encantou tantos com seu talento. "Vidas" em molduras e a morte solitária do autor dos quadros. 

Talvez ele tenha recebido alguns telefonemas ou a campainha de sua casa tenha tocado durante o período em que jazia morto ou até tenha tentado atender às primeiras chamadas, mas estivesse impossibilitado de locomoção pela fraqueza ou forte dor. Causa da morte desconhecida. Putrefação adiantada. Não puderam ser realizados exames cadavéricos.

Só mesmo um milagre traria à vida aquele homem, como quando Jesus ressuscitou Lázaro que estava morto há quatro dias e cujo corpo cheirava mal,  conforme narrado na Bíblia Sagrada, no Livro de João Capítulo 11, versículos de 39 a 44. Não raro muitos ficam na expectativa de uma solução, de um acontecimento milagroso. 

Para que tenhamos qualquer vitória temos que fazer a nossa parte. Jesus pediu que alguém removesse a pedra e então Lázaro saiu do túmulo. Primeiro Noé teve que construir a arca e colocar os animais dentro dela para só depois Deus fazer chover.

Quando a morte chega, exceto se advier o milagre da ressurreição, não há como retroceder ou avançar. Daí termos que estar atentos ao que temos feito ou deixado de fazer. Nossas atitudes vão determinar o tempo em que estaremos com uma vida escassa de paz, conquistas, amor e alegria.

O homem que citei morreu sozinho. Não conheço a história pessoal dele. Entretanto, sei de pessoas que se enclausuram em autopiedade e tristezas. Que encarceram a alma, não se colocam livres para alçar novos voos e enforcam a esperança.  Prendem a emoção do passado e não se libertam das angústias e traumas. Há vida, mas apodrecido está o coração. E se isolam. E são isolados.

Não deixe sua alma adoecer. Já disse, acertadamente, a poeta e filósofa Viviane Mosé: "dor endurecida é tumor". 



14 janeiro 2013

Uma telespectadora passiva de BBBs etc

Existe o fumante passivo. Não é novidade e todo mundo sabe o que significa. Agora também me enquadro noutra categoria: a do telespectador passivo (nem sei se já existe esta expressão por aí). Há anos não assisto a novelas, mas ouço muitos comentários a respeito. Não vejo Big Brother Brasil, mas estou inserida entre os que vêem o programa. O tema pode não me interessar, mas minha audição capta os sons ao meu redor. Vivo em sociedade.

Recentemente uma colega falava sobre alguém preocupadamente. Eu estava concentrada em meu trabalho e - como se diz - "peguei o bonde andando". Imaginei que havia acontecido algo com um familiar ou uma pessoa muito amiga. Nada disso. Tratava-se de ficção. Era sobre uma personagem de novela. Até fiquei aliviada.

Domingo, no Fantástico, foi exibido um trecho do BBB. Foi o bastante pra confirmar que ganho (e muito) ao deixar de assistir ao tal reality show. Talvez você seja um telespectador ativo de BBBs e novelas. Cada um alimenta a mente do que pensa precisar ou do que oferecem e, neste caso, sem qualquer questionamento. Eu optei por filtrar, conforme minhas necessidades intelectual, espiritual e emocional.

É verdadeira a máxima de que pra gente ter algo novo é preciso desapegar do velho e que é preciso que pensamentos e comportamentos sejam diferentes para que uma mudança desejada aconteça. Vale a pena uma espécie de faxina no cérebro, como quem tira dele o que obstrui a passagem para pensamentos renovadores.

Quando vejo pessoas alimentando-se de BBBs e novelas, mastigando cada episódio como se fosse  o derradeiro amendoim do pacote, imagino que deve ser insossa a vida de cada uma delas. É como se a história do outro fosse um êxtase e a sua própria uma edição medíocre que circula no planeta Terra.

Mas, é claro, pode não ser nada disso. Quisera estar errada em minha breve análise e permanecer uma telespectadora passiva de BBBs, folhetins tolos etc. Exceto, evidente, se até eles mudarem.

(Fátima Nascimento)

12 outubro 2012

Palavras que vestimos

Palavras são importantes. Tanto são que a poeta Viviane Mosé diz que "a palavra é uma roupa que a gente veste". Aí pensamos sobre como está o nosso guarda-roupa de palavras. Há as roupas curtas, longas, vulgares, moralistas, politicamente corretas, neutras, coloridas... Escolhemos a peça conforme a ocasião ou temos o nosso estilo independentemente de onde estamos ou para donde vamos?

Talvez haja peças de roupas que precisam ser arrancadas do armário e nunca mais usadas. E nem devemos doá-las, pois se não servem pra nós, não devemos querê-las em outras pessoas. Há palavras que vestimos e temos vontade de rasgar, como se não tivessem existido. Mas já nos despimos delas. Alguém já as ouviu e nos mostramos com uma peça inadequada que feriu.

Com quais palavras você sai de casa todos os dias? Você usa a que está na moda sem se importar com a consequência dela ou você faz uma seleção e não se veste com qualquer uma? Tem quem se vista com o negativismo, com a antipatia, soberba, hipocrisia e outras roupas inúteis - ao meu ver.

Pense nisso e faça uma faxina no seu guarda-roupa de palavras. Afinal, uma palavra mal dita fala contra você e ainda pode ser copiada por quem acompanha a moda sem olhar para o próprio espelho.

Abaixo, como não poderia deixar de ser, as palavras da poeta Viviane Mosé, que - em minha opinião - escolhe bem as "roupas".


E você?
A palavra é uma roupa que a gente veste.
Uns gostam de palavras curtas.
Outros usam roupas em excesso.
Existem os que jogam palavra fora.
Pior são os que a usam em desalinho.
Alguns usam palavras caras.
Poucos ostentam palavras raras.
Tem quem nunca troca.
Tem quem usa a dos outros.
A maioria não sabe o que veste.
Alguns sabem e fingem que não.
E tem quem nunca usa a roupa certa pra ocasião.
Tem os que se ajeitam bem com poucas peças.
Outros se enrolam em um vocabulário de muitas.
Tem gente que estraga tudo que usa.
E você, com quais palavras você se despe?
(Viviane Mosé)

23 setembro 2012

O que é ter esperança?

Foto: Fátima Nascimento
Todos nós temos o nosso conceito sobre ela. Mas ainda assim fui ao dicionário para ser fiel ao significado da palavra, onde está que esperança é o "sentimento otimista que leva à espera da concretização de desejos". Veja só: um dos requisitos é ser otimista. Portanto, o pessimista é um desesperançado. Não há  gota de expectativa positiva nele. Quanto à mim, sou cheia de esperança. E ela sempre me socorre.

Li certa vez que a esperança deve ser abandonada. Como assim? Pode-se perguntar. Talvez o lado negativo seja o de alguém estar sempre na espera, sem efetivamente "arregaçar as mangas", ter atitudes que levem à realização do almejado. Assim, penso que dá pra entender o que se quis dizer com a necessidade de "abandonar a esperança".

Você tem esperança? Se tem, o que tem feito com ela? Você apenas espera e espera sem que mova uma palha para que seu desejo torne-se realidade? Ou você acredita que é possível alcançar seu objetivo e batalha por ele?

Devemos ter a consciência do que queremos e assumir nossa responsabilidade para alcançar nossas metas. É um engano colocar em outra pessoa a culpa por uma frustração nossa.

Também no dicionário está que esperança  é um "inseto verde de corpo alongado que possui asas, antenas longas e emite um som característico". Pode ser que a única esperança que você enxergue hoje seja  o inseto. E ainda assim cada vez mais rara em tempo de urbanização crescente, barreiras de concreto... Ou talvez seus olhos estejam tão enferrujados que a natureza não lhe encante mais.

Tenho inúmeras esperanças. São desejos que alimento em meu dia a dia. Sei que para realizar sonhos preciso dar passos pra frente, ter mais disciplina, aprender mais e ousar fazer. Estou no caminho. Minha esperança move-me. E me renova a cada manhã. Que seja sempre assim.

02 janeiro 2012

Faz de conta da virada

Primeira semana de 2012. E chove. Gosto de ver a chuva da minha varanda. É bom estar protegida sob um teto sem goteiras e ter uma coberta ao alcance de minhas mãos, além de agasalhos no guarda-roupas. Mas não está totalmente bom. Vi uma reportagem na televisão que nos faz valorizar o que temos, mas ao mesmo tempo bate doído na gente. Era sobre o réveillon de pessoas que moram nas ruas. Antes havia visto uma matéria sobre a comemoração da virada de ano do ex-jogador Romário. Tão contraditório!

Um dos entrevistados falou da dificuldade de conseguir emprego. Ele confessou que durante 10 anos "trabalhou com drogas". Quando tenta um trabalho, seus possíveis empregadores levantam sua ficha na polícia e a esperança de emprego escorre pelo bueiro. "A sociedade precisa ver os moradores de ruas como seres humanos", apelou o jovem que vive com sua mulher grávida de 7 meses na rua.

Será que ele ainda ainda é usuário de drogas? A mulher dele é dependente química? Por força de um trabalho social, converso com homens e mulheres que abandonaram suas casas numa entrega total ao vício. Tantos foram relegados pelas famílias que já não suportavam viver com um "inimigo" sob o mesmo teto. Os drogados passaram a viver em ruas escuras mesmo no clarão do dia.

As histórias podem ser diferentes ou bem semelhantes. O que não muda e deve ser defendida é a dignidade humana. Se há doentes físicos ou doentes da alma, que sejam acolhidos; que haja programas sociais eficientes e eficazes; que a prevenção seja feita nas escolas, igrejas, em casa.

Meu desejo é que em 2012 os nossos governantes não brinquem de chefe do executivo! Não há nenhuma graça em morar debaixo de viadutos e dividir espaço com ratos e baratas. Não é divertido não ter privacidade, não ter agasalhos, comida e não ter a opção de fechar a janela enquanto chove.

                                                                Foto: Fátima Nascimento

01 setembro 2011

Flores e armas

Fátima Nascimento

Parece que foi ontem que usei este espaço para relembrar o ataque às torres gêmeas do WTC, nos Estados Unidos, ocorrido em 11 de setembro de 2001. Durante muito tempo teremos a imagem daquela tragédia em nossa memória e seremos compelidos a falar no assunto em protesto contra tamanha barbárie, ignorância e desrespeito à vida alheia, especialmente se considerarmos que inocentes foram vitimas no atentado.

Aquele foi um ataque terrorista. Mas em nosso dia a dia temos outras formas de ataques cruéis que quando não ceifam vidas, destroem sonhos e sufocam a esperança. Roubos seguidos ou não de morte, violência sexual, violência doméstica ou mesmo furtos pequenos deixam transparecer nossa impotência diante de um poder paralelo ao considerado poder oficial.

Temos policiais legalmente armados e bandidos ilegalmente armados. Temos o direito de ir e vir garantido na Constituição Federal e ruas em que somos impedidos de trafegar sem autorização dos "chefes" do local. Há pontos na cidade em que as vias urbanas estão cheias de buraco, paralelepípedos estrategicamente retirados e amontoados com o objetivo claro de dificultar o acesso da polícia e de quem mais não for bem-vindo. O poder público – dedução lógica – finge não ver ou perceber a intenção.

Agora me resta dizer que um novo mês chegou. Não é o mesmo setembro do ano passado. Haverá lembranças de setembros anteriores, mas este mês agora é que vale. Temos que encarar desafios, superar obstáculos, passar pelos espinhos pra chegar às flores. E os espinhos ajudam a valorizar o que está no topo.

Desejo flores pra amenizar as dores e alegrar os dias. Desejo o sol pra mostrar que um novo dia começa. Desejo a lua pra repousar e sonhar. Desejo o vento pra varrer o medo e renovar a esperança. Desejo não parar de desejar.

17 fevereiro 2011

Marcas do tempo


asilo_poesia
Não importa qual asilo de idosos, nele sempre haverá homens e mulheres que têm na face e na fala a marca do tempo. Não faço referência apenas às rugas ou à voz cansada, mas também a calos na memória e frases desconexas. Um deles se aproximará e contará uma estória que você não vai entender. O jeito é fingir-se cúmplice de cada palavra balbuciada sofregamente.

Estive num destes locais que abriga personagens da vida que parecem esperar calmamente pela morte. Dá pra se "ver" anos adiante e ter receio do que o tempo fará conosco. Aos 19 anos visitava com frequência os idosos dum outro asilo. Naquela época, talvez por estar mais longe da velhice, tinha um olhar diferente. Via naqueles senhores e senhoras as figuras de meus avós e não a mim em um futuro.

Adélia Prado em "O tempo", escreveu: "(...) além de velha pecava pela rejeição de sua velhice e pecava feio, aumentando-se por conseqüência e castigo em mais velhice e mais feiúra". Não rejeitar a velhice deve ser fundamental para que ela chegue moderadamente. É como se aceitar de forma gradativa. Ver as mudanças no corpo, na disposição física como reflexos do amadurecimento ou uma conseqüência natural às pessoas que acumulam anos à existência.

Assistindo a uma entrevista do grande poeta Manoel de Barros, concedida aos 90 anos, nutri o desejo de alcançar a sua idade com a mesma lucidez, sapiência e espírito jovial que ele mantém. Invejei – no bom sentido – a sua pureza. Como um homem, aos 90 anos, permanece tão lindamente puro? Não há rastro de contaminação de sentimentos, parecem inexistir pecados velados.

Embora nonagenário, Manoel de Barros tem o olhar de uma criança e suas palavras expressam este enxergar diferenciado. Encanto-me com seus poemas cheios de poesia. Ele ensina que "(...) as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes".

Se eu chegar ao clímax do amadurecimento etário, Deus permita que seja capaz de despertar em quem estiver por perto um encantamento, senão igual, ao menos semelhante. Aí poderei dizer que eu e o tempo caminhamos lado a lado e que suas marcas não me foram letais.

(Fátima Nascimento)

11 fevereiro 2011

Liberdade aos passarinhos

A prisão dos pássaros me incomoda, mas nem sempre foi assim. Tive passarinhos engaiolados quando criança e o passatempo de meu avô era "cuidar" desses bichinhos em gaiolas e manter alçapões no quintal pra aumentar a criação. Naquela época eu não tinha uma opinião formada sobre a limitação que era imposta aos pássaros. Hoje mais consciente e valorizando a liberdade do ir e vir, não ouso prender estes seres.

Prefiro passarinhos livres. Quero-os cantando, colorindo árvores, fiações e o céu. Um "querer" sozinho não pode muito, mas pode ser o começo de uma revolução nos pensamentos e atitudes. Foi assim em Fortuna de Minas, município de Minas Gerais. Uma história que vale a pena contar e vivenciar.

A população de Fortuna de Minas, após o trabalho de conscientização iniciado por um morador, desengaiolou os pássaros. A natureza deu-lhes morada nas árvores e até os postes (obra dos homens) servem de hospedagem, com ninhos contrapondo-se ao concreto.

Pássaros livres para acasalamento, livres para construir seus ninhos e buscar seu alimento. As gaiolas ficaram vazias. Fora delas estão os pássaros de Fortuna de Minas e também os homens que têm a riqueza dos pássaros. A cantoria afinada ganhou volume com o nascimento de novas aves e mais inspiração.

Assim como o poeta Manoel de Barros, eu quero "a palavra que sirva na boca dos passarinhos". Atrevo-me a afirmar que a palavra liberdade é uma delas.


* Texto inicialmente publicado no Jornal Monitor Campista em 20/05/2008.

11 janeiro 2011

Os dias correm

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Um novo ano. A idéia do novo nos cobra mudança, transformação. Janeiro já vai. E como vai... O dia parece ter pernas e corre alucinadamente como um atleta numa disputa olímpica. Nós somos participantes nesta corrida com o tempo. Ele tem pressa! Muitas vezes parece nos faltar fôlego pra acompanhar o ritmo que ele nos impõe.

Mas não quero encher a bola do tempo e menos ainda a do calendário atual. Vou pegar carona no dito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade: “É dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre”.

É tão bom saber que não dependemos de calendário pra iniciar a mudança dentro de nós. Fazer o novo acontecer em nossas vidas depende do nosso primeiro passo; depende de decisões pessoais; depende do querer; do arregaçar as mangas, não importando em que mês se está.

Sou avessa a formalidades quando o assunto é renovação de atitude. Tem que ser já! Burocracia demais coloca nossos projetos na gaveta e nossos sonhos correm o risco de adormecer. A formalidade congela nossa emoção e a razão fica exausta. Sem emoção e garra não há projeto que alavanque e não há tempo que baste para a concretização do sonho.

Drummond dá a dica: “Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente”.

Sigamos o conselho do poeta.

07 dezembro 2010

O ano termina, outro chega

wayPoucos dias para o final de mais um ano. Lembranças de lutas pessoais e profissionais, de momentos de ilusão que fazem amadurecer. Mas há muitas vitórias e sou grata a Deus por elas. Sequências de quedas, colos, superação.

Mais uma vez me decepcionei com gente, mas também aprendi tanto com GENTE. Puxei minha orelha diversas vezes. Repeti erros. Acertei outras vezes. Uma missão me foi revelada.

Em alguns momentos vesti uma “armadura de soldado” para não ser machucada e não ferir outros com palavras duras que podiam saltar do meu coração. Eu me arrependo quando digo certas coisas. E dói em mim dizê-las.

Corri do perigo e fui ao encontro dele. Fui tola e sábia. Fui neutra e ativa. Fui ingênua e maliciosa. Acreditei em palavras bonitas, em botões de rosas arrancadas do pé e que nunca se abriram. Li gestos de forma errada; ouvi o que não foi pronunciado; criei expectativas equivocadas. Guerreei.

Aprendi dança de salão, mas sei que falta muito pra eu fazer bonito no tablado. Segui a intuição. Encantei. Desencantei. Iludi. Desiludi. Vivi cada instante com esperança e entrega. Eduquei ainda mais a minha sensibilidade por meio da arte. Tentei aprender sax!

A menina misturou-se a mulher. E se brincaram. E se cansaram. E se deixaram, às vezes. Escrevi tanta poesia que dá pra publicar um livro (falta patrocínio). Fotografei muito, mas ainda menos que gostaria. Viajei. Driblei o desânimo. Eu me vesti de sol e de lua. Chorei a morte de um cão leal. Conheci novas pessoas e desejei não ter conhecido outras.

Foi um ano difícil. Foi um ano fácil. Foi um ano contraditório. Um ano de guerra civil no Rio de Janeiro e fiz a pergunta de muitos: “Por que demorou tanto?”. Recordei um tio assassinado no Rio. Questionei (e questiono) o que falta pra que estas ações aconteçam em cidades de menor porte, onde traficantes já ostentam poder em “seu” território.

Fui água que ara a terra. Cultivei o verde. Espinhos me feriram, mas insisti e vi rosas e flores desabrocharem lindamente em minha varanda. Conversei com os pássaros, com as plantas, com o céu e especialmente com o dono do Universo. Fui filha amável e respondona, irmã ausente e presente, tia coruja e educadora. A música embalou meus dias e noites, preencheu silêncios, abafou sons.

Estou inteira. Madura. Mas tenho muito ainda a aprender e realizar. Quiçá ensinar. E como me realizo com isso! Ano novo. Mais experiência. Vontades. Projetos. Sonhos que se renovam. Nascimento diário.

Que os versos e verbos falem de mim, em mim. Que sejam alento e jardim onde pensamentos aflorem e façam alguma diferença num mundo em que a individualidade é crescente. Que eu não me torne um deles.

Que o SER supere o TER. Que o BEM prevaleça em mim, em nós. Que Deus nos abençoe e proteja, sempre. Amém.

(Fátima Nascimento)

09 novembro 2010

Além dos livros

Uma bienal do livro encanta não apenas pelos livros, seus autores e programação cuidadosamente elaborada. Há histórias não ficcionais nos corredores, nos estandes, nas salas de debates, nos espaços de shows. Há vidas que desabrocham entre livros, que se vêem nas entrelinhas de pensamentos de conceituados ou menos conhecidos escritores. E como é bom ouvir a voz de quem lemos, ter a chance de fazer perguntas, interagir, sorrir com eles e se emocionar.

Filas de autógrafos após as conversas literárias são comuns. A de Luís Fernando Veríssimo, na Bienal do Livro de Campos, formava uma frase bem grande, quero dizer, uma carreira enorme de leitores. Num certo momento ele autografou para uma leitora cega que se aproximou dele com uma encadernação em braile. O autor ficou um tempo sem fala nos dedos, deslizou a mão na folha e perguntou se poderia escrever na primeira página. Ela respondeu que poderia ser em qualquer lugar. Veríssimo deixou sua marca no caderno  onde o relevo é o intérprete do escritor e sua dedicatória não será vista pela fã, mas “sentida”. 

É preciso transpor as barreiras entre homens, educação e cultura. A criança que mendiga nos semáforos, os pedintes das esquinas que ficam enquanto passamos têm direito ao saber, ao entretenimento, ao cultivo da sensibilidade por meio dos livros. Impossível? Não, não é.

Estava eu no Café Literário, acompanhando um tributo à escritora Rachel de Queiroz, quando vi um senhor entrar na sala. Eu já o conhecia. Tratava-se do “homem do sinal”, um vendedor de guloseimas que já me inspirara a escrever um poema (leia). Ele sorriu pra mim (como faz no vermelho do sinal de trânsito), estendeu-me a sua mão e perguntou se sou jornalista, pois me viu com a câmera fotográfica e um bloco de anotações.

O que sou? Uma privilegiada. Não apenas por participar de um evento desse porte, mas especialmente porque meu olhar está além da visão. É assim que a gente se alegra com o que parece apenas mais um detalhe e permite que a nossa história não seja um monólogo. Não somos as únicas vozes.

(Fátima Nascimento)


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Luís Fernando Veríssimo quando
foi autografar a encadernação
em braile de sua fã
Foto: Fátima Nascimento

24 outubro 2010

Nossas bagagens

Ao longo da vida tenho acumulado experiências bacanas. Cada coisa que acontece eu coloco no armário da memória. O que vale a pena ser lembrado e necessário reviver eu ponho nas prateleiras mais baixas, pra facilitar o meu acesso (hábito de gente pequena). O que causou dor e prefiro não lembrar, fica no alto, distante de minhas mãos e encaixotado.

Um episódio recente fez-me lembrar de algo que está na prateleira de cima. Peguei a escada e abri a caixa, desembrulhei e olhei para aquele acontecimento passado. Mas não doeu, não dói mais. Superei. E me regozijei ao lembrar que fui vitoriosa. Ficou uma lição e tanto. Graças ao aprendizado e maturidade, o que aconteceu agora não me abala, apenas me deixa indignada. Vencerei mais uma vez. Quiçá tenha acontecido pra eu colher bênçãos maiores.

Eu creio que Deus usa as pessoas pra falar com a gente. Estava andando na rua e um homem bem incomum nos trajes e fisionomia, olhou pra mim e disse que deveria agradecer a Deus por eu ter passado ao lado dele e ele ter a chance de me olhar. À medida que ele andava, e eu diminuí o passo pra entender, falou palavras bonitas sobre amor, trabalho, coração, tirar a dor do peito. Ele foi pra lá, eu pra acolá. Ambos desejando a presença de Deus na vida um do outro. Vi no rosto daquele homem o sofrimento estampado, mas seus olhos 
vestiam a esperança.

Gosto quando o vendedor de guloseimas no sinal fala meu nome e eu falo o dele e a gente se sorri. Gosto quando uma pessoa que atendi no trabalho passa ao meu lado e me cumprimenta com alegria e ainda mais quando tenho uma boa notícia pra lhe dar. Amo os olhares ternos em minha direção numa reciprocidade ao afeto que lhes tenho. Sei quando vêem a mulher e quando vêem a menina. Sei quando tudo isso se mistura e se confunde. Sei que nem sempre posso confiar nos homens, mas fico contente quando percebo que valeu a pena acreditar.

Todos nós – penso eu – devemos escolher uma bandeira pra carregar ao longo da vida. Nos desfiles de sete de setembro está a bandeira do Brasil. Uma vez por ano ela se faz presente na passarela, mesmo que quem a carregue não tenha qualquer orgulho ou admiração pelo seu país. Cumpre-se a missão de levar a bandeira e só.

Mas sobre a bandeira da qual falo não pode ser assim. É uma escolha pessoal, independentemente de país de nascimento. Tem a ver com nosso ideal. Tem a ver com nossos sonhos.

A minha bandeira - descobri – é a da “humanidade”. E mesmo que ajam com desumanidade, inclusive em relação a mim, preciso continuar com a minha bandeira, desfilando em todos os lugares e momentos, num basta à desumanização que afugenta nossos sonhos e tenta nos tornar “máquinas”.

O armário da memória está bem cheio, mas organizado e controlado. Há ainda espaço pra mais aprendizado.

21 outubro 2010

Na pista?

Assalto, Romário, cruzado, balancinho, contratempo com facão. Entendeu? Não se preocupe se a resposta foi negativa. Explico. São nomes de passos do samba na dança de salão. Mas, claro, o fato de eu saber disso não significa que você pode me tirar pra dançar e que daremos um show na pista.

Assim como para ler uma palavra é preciso não apenas conhecer o alfabeto, mas juntar as letras, o mesmo na dança de salão. Temos que saber como é cada passo e uni-los, formando coreografias. Dito isso, vamos ao que interessa. Sou aprendiz na dança de salão. Sei fazer cada um dos passos acima mencionados e outros que não me lembro o nome (não é essencial saber), bem como sei juntá-los, passando de um para outro passo.

Calma, não se anime ainda pra me chamar pra pista. Na qualidade de dama, deverei ser conduzida. Isso mesmo! Não adianta esperar que eu dê o comando sobre que passo fazer. Nós, as damas, nessas horas – que fique bem claro – aceitamos a submissão. E quando o cavalheiro sabe mandar, ou melhor, conduzir, é uma beleza. Aí parece aquela história do côncavo e o convexo, tamanha sincronia.  

Ainda não me convide. Tem algo mais. É preciso prática. Meu professor de dança entre um giro e outro diz que tenho facilidade pra aprender os passos, que sei os passos e isso e aquilo, mas me falta a prática pra ficar bem natural. Ou seja: deveria sair pra dançar.


Preciso dizer outra coisa. Sou caseira ao extremo e tenho dificuldade em cumprir o item “sair”. Hoje o professor de dança me disse (e ao telefone, enquanto me lembrava de um baile que terá à noite): “É como aprender a dirigir, tem que praticar”. Falei que estava propensa a ir. Mas entre o telefonema e meu retorno pra casa após o trabalho, li a sinopse de um filme.

Em síntese, não estarei no baile mais uma vez.  Aluguei um DVD e esta noite vou ver um filme maravilhoso em minha casa.

(Fátima Nascimento) 

Reconciliação

Resolvi me reconciliar com o texto em prosa. Há algum tempo atenho-me aos poucos versos em poemas e algumas notas curtas sobre um caso ou outro. Imponho-me o desafio de não deixar de exercitar a escrita da poesia, uma vez que o inverso aconteceu. Abracei a poesia e me “separei” da crônica e dos contos. Mas tenho a dizer – em minha defesa – que a leitura dos gêneros continuou, especialmente os textos de Rubem Alves, Fabrício Carpinejar e Clarice Lispector.

Pensando cá com os botões das rosas que tenho na roseira, na poesia estou nas entrelinhas, não me exponho amiúde. Tem que ser um leitor tenaz pra erguer a palavra e ver o que tem debaixo dela; já na crônica é diferente. Escrevo sobre o cotidiano, o que sinto, o que vi ou queria ter visto; relato minhas impressões e angústias pelas mazelas na sociedade; sou intérprete em prosa do que capta o meu olhar.

Da fotografia eu me confesso refém. Porém, fotografo menos do que gostaria. Acredito no impacto da imagem que pode ou não ser conciliada com o texto. Quando a fala se ausenta, a foto conta tão bem o meu encanto ou desencanto. Dia desses cliquei uma cena descabida e de fácil solução, em minha opinião. Ao mostrar centenas de fotos, a tal imagem apareceu. Em seguida veio a ordem – de uma autoridade – para que uma mudança fosse realizada. Não precisei usar as palavras e nem estava à vontade pra isso. A força da imagem foi o bastante.

É isso. Desejo que os leitores já habituados à escrita sucinta neste espaço, permitam-se um tempo um pouco maior por aqui, pra que leiam mais algumas palavras que escorregam pra ponta de meus dedos, caem no teclado e aparecem – como mágica – na tela de seu computador. Se comentarem, então, será um incentivo e tanto.

Como estímulo ao leitor, antecipo que até nas crônicas, artigos e contos sou uma escritora concisa. Escrever um romance seria um desafio DESAFIO pra mim. Quem sabe um dia...

07 dezembro 2009

Nas linhas do rosto

Depois de vinte anos voltei ao asilo que visitava no início de minha juventude. Meus cabelos ainda não estão brancos como os daquelas senhoras e nem dores no corpo me acompanham, felizmente.

Apesar dos anos somados à minha idade, fiquei contente em perceber que a sensibilidade não mudou. Evidentemente que uma maturidade me acompanha; um novo olhar sobre a velhice, uma compaixão diferente e uma sensação, quase certeza, de impotência.

Vi rostos conhecidos e deixei de ver tantos outros, mas percebi nos novos moradores características das senhoras com quem eu conversava em minhas primeiras visitas ao asilo.

Lembrei com alegria de uma antiga habitante daquele lugar – na época com 100 anos – que cantava e eu registrava a voz dela no gravador. Foi emocionante quando se ouviu cantando, sem saber que estava sendo gravada e sem enxergar o gravador, uma vez que já sem a visão.

Percorri todos os alojamentos. Vi todas as camas. Seus armários e simples pertences. Chamou minha atenção um pequeno ser debaixo de um lençol, sem que alguma parte do corpo estivesse à mostra. O tamanho era de uma criança pequena, mas, por certo, tratava-se de uma mulher bem madura. Como tive vontade de ver seu rosto...

Ao conversar com uma senhora ela se lembrou de uma música que disse ter sido proibida de cantar por causa da guerra. Uma canção que falava do Brasil – um país varonil. “Não é mais proibido. A senhora pode cantar.” E ela cantou...

Mulheres maduras na idade. Experientes na vida. Sedentas de atenção ou já isentas de vontades. E quando conversam falam de histórias tão passadas e nem todas sabem a idade que possuem. Mas os anos de vida são mero detalhe naquele celeiro de brava gente brasileira.

O Brasil da antiga ditadura, da contemporânea corrupção, da idolatria monetária não é sempre pátria gentil pra quem arduamente lutou por um sustento digno, uma moradia justa, uma educação de qualidade para seus filhos e netos. Não vi no asilo pais de marajás, nem marajás. Vejo um descaso social. A instituição em si não é culpada.

Falta a alardeada vontade política. Falta justiça social. Falta humanidade. Falta “ler” nas linhas daqueles rostos as histórias individuais e respeitá-las. E não permitir que o ponto final seja o abandono da sociedade.

02 janeiro 2007

Crônica

"Broncas vindas do céu". Leia no Comunique-se.

Pessoal, tenho postado mais no Verbo Solto do Blog-se.

Até lá!

12 novembro 2006

Embriagados de palavras


Início da noite de sábado. Hora marcada, não para chegar numa festa ou na sessão de cinema. Reunião informal para “beber” palavras. Nove pessoas – entre elas, eu – embebedaram-se do poeta Manoel de Barros. Conversamos sobre sua obra, a forma que expressa idéias e sentimentos, como “moleca o idioma”. Lemos e ouvimos textos escritos por ele. Uma noite agradável e diferente, que se pretende seja repetida uma vez a cada mês.

Não se trata de encontro de intelectuais. Nem me considero como tal, embora para meu sobrinho de nove anos o fato de eu ter algum conhecimento de inglês me confira o adjetivo “inteligente”. Definimos quem será o autor-estudado na próxima reunião. A Clarice Lispector. Tenho curiosidade em saber mais sobre as obras dela; conhecer vários de seus textos. Uma leitora certa vez disse que tenho um pouco dela em minha expressão textual. Não me atrevo a comparar.

Lembro-me de numa palestra, o escritor e roteirista Alcione Araújo ter mencionado a dificuldade que algumas pessoas têm de compreender que há quem prefira ficar em casa lendo um bom livro a sair pra festas. Suponho que todos os participantes do encontro ao qual me referi aceitariam bem a justificativa “Desculpe, não aceitei seu convite porque estava envolvida com uma leitura maravilhosa e não quis interromper”.

Recentemente, terminei de ler “Nem mesmo todo o oceano” do próprio Alcione Araújo. Foram quase oitocentas páginas de um romance, cuja obra recomendo. Deixei de ir a uma festa, não exatamente devido à leitura – que pelo volume precisou ser pausada muitas vezes –, mas confesso que lia o livro enquanto a festa acontecia.

Reuniões como a que citei deveriam ocorrer às milhares. Ouvimos idéias escritas e ditas por outros; concordamos ou discordamos. Mas respeitamos. “Lugar sem comportamento é coração”, alerta Manoel de Barros. Coração empedrado não deveria existir nem mesmo fora dos poemas.

19 agosto 2006

Exercício do silêncio

O mês de agosto carrega com ele um pré-conceito evidenciado quando se diz que é o mês do desgosto. Questões históricas à parte, muita gente agarra-se a palavras balbuciadas num tempo qualquer e sai a repetir incoerências. Talvez até fizessem sentido numa ocasião, mas hoje são inoportunas e insensatas.

Falem mal, mas falem de mim”. Eu já disse isso, você já deve ter dito. Mas de maneira nenhuma me encaixo na frase. Se for pra falar mal, prefiro que não mencione meu nome! Temos pressa desmedida em dizer alguma coisa e podemos ser carrascos de nós mesmos ao agir assim.

Uma amiga aconselha que exercitemos o silêncio, mas ela reconhece que tem dificuldade de colocar a façanha em prática. Não que devamos emudecer, baixar a cabeça, não se defender, mas ao menos dominar a ânsia de contra-atacar. O silêncio pode ser a melhor resposta. O olhar se comunica; o corpo se comunica. Nem sempre a voz é o instrumento mais adequado.

Reconheço que com o tempo nos vemos à beira de uma explosão “palavresca”, que geralmente nada acrescenta ou resolve. Aquele velho método de contar até dez não funciona quando o grau de saturação é intenso e inflamado. “Estou cansada de gente”, ouvi uma mulher dizer após ser atendida eficazmente numa repartição pública. Ela externou seu rancor, sua raiva do “mundo”. Cansou dela mesma.

Já pensou chegar ao extremo de não confiar em ninguém? Temos inimigos ocultos; inimigos declarados. Somos o algoz de alguém mesmo sem saber. Fantasiamos. Fantasiam. Muitas verdades precisam ser ditas, mas a hora e a maneira de dizer precisam ser descobertas e aprendidas. Só temos a resposta quando praticamos o silêncio.

entre papeis

r e s í d u o s há em todos. não se dissipa a dor (ressignifica-se).