03 maio 2023

Vestígios

 


O tempo passa rápido e a gente com ele segue. Fotografar é escrever com a luz. E são tão iluminados meus peludos! Uma dor que sinto, antecipadamente, por um dia não tê-los mais comigo. Então, são as lágrimas que escrevem a saudade. E já a tenho escrita na face (e peito). 

10 junho 2021

O livro

Pedro Lucas caminhava numa praça de seu bairro, onde viu uma jovem sentada sobre a grama. Junto dela, um livro.

Curioso, quis saber o que lia. Aproximou-se devagar, olhando para o céu, disfarçando o interesse.

O que as palavras daquele livro diziam pra ela? Era a pergunta que Pedro Lucas se fazia.

O semblante da jovem era sereno e ao mesmo tempo perturbador... Ora, sorria; ora, enrugava a testa; ora, parecia esboçar um choro. 

Já perto, foi surpreendido com uma indagação:

- Você sabe ler?

Pedro, de início, ficou sem fala... Não queria ser notado... Desejava ler o título do livro. Depois, ir embora.

- Sei - respondeu (pela idade, como poderia pensar que não soubesse?).

Ela, animada, ficou de pé, e disse:

- Você pode dizer o que está escrito aqui?

Sem entender, Pedro Lucas segurou o livro. Tinha um trecho que estava sublinhado. 

Antes, perguntou o nome dela.

- Betânia... Pode me chamar de Bê mesmo!

Ajeitou os óculos, colocou o livro diante de si, segurou com firmeza e leu o que estava grifado:

- "...por dentro ainda sou a menina que se assusta ou diverte com qualquer bobagem que outros nem percebem, entretidos que estão com assuntos mais importantes".

O texto era de Lya Luft, da obra "O rio do meio".

Bê abriu um sorriso largo e sentenciou:

- Não estou mais sozinha! Você é como eu!

Pedro Lucas sorriu alto. Nunca tinha feito isso em público!

Pela primeira vez, olhou pra si com imensa ternura e aceitação.

Não era um tolo. Escolheu ser feliz. 


(Fátima Nascimento)

03 janeiro 2021

Fantasia e realidade

Três de janeiro de 2021. Parece que foi ontem que o ano 2.000 (dois mil) parecia tão distante... Certamente, todas as pessoas das décadas de 70 e anteriores que agora leem isso, entendem o meu sentimento.

Naquela ocasião, a ideia que se tinha era de que quando esta época chegasse, estaríamos mais espaciais (no sentido de transporte no espaço aéreo mesmo) e que a alimentação se daria muito em cápsulas.

Muitos destes pensamentos tinham relação com desenhos animados futuristas que assistíamos, como "Os Jetsons" (imagem).

Eu me lembro que um de meus desejos era ter uma televisão na palma da mão. E veio o celular com uma tecnologia que nos permite estarmos 24 horas conectados a imagens e sons.

Nós poderíamos estar muito felizes com tantos avanços! Mas não é bem assim... A miséria segue em similar proporção. Muita gente ainda sente fome, frio, calor em excesso... morre e mata. Tanta ganância.

No livro "Ética da vida" (Editora Letra Viva/2000, fl. 137), Leonardo Boff (teólogo) destacou uma fala do cacique americano Seattel: "Quando a última árvore for abatida, quando o último rio for envenenado, quando o último peixe for capturado, somente então nos daremos conta de que não se pode comer dinheiro".

Alerta antigo e tão oportuno!

30 dezembro 2020

Dez anos depois, com o homem do sinal

Dez anos depois, eu me reencontrei com o homem do sinal.

Onde? No mesmo semáforo de antigamente, esquina da Barão de Miracema com a movimentada Avenida 28 de Março.

Naquele dia, domingo 27, estava sozinha no carro.

Ele estava só, sentado no meio fio.

Quando vi que era ele, abaixei o vidro.

Ele se levantou com a destreza de quem há anos equilibra a vida sobre uma perna.

O homem do sinal sorriu o sorriso de outrora, reconhecendo-me.

- Você está com o rosto mais cheio! - ele me disse, elegantemente.

Em seguida, sem reservas, perguntou se eu havia votado em Wladimir; se tinha filhos, recomendou que eu adote uma criança... Se eu continuava em jornal... Falou que o Monitor Campista (jornal centenário que foi fechado) deveria voltar a circular...

Entre o vermelho e o verde do sinal, aquele homem conversou amistosamente. 

Na sua lembrança, destacou que certa vez dei a ele uma caixa de halls para venda.

Dez anos depois, um gesto simples ainda nutria nele a esperança.

A moeda não era o principal. 

Naquela rápida conversa, ao final, ele disse, "não deixe de ter bom humor!".

Dei a partida. E segui.

A história pode ser bonita. A conversa foi amistosa. 

Mas nada tira a certeza de que o homem do sinal sobrevive.

E precisa viver.

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Veja, abaixo, o texto que escrevi há 10 anos.

O homem do sinal

No sinal de trânsito
Um vendedor de  guloseimas

Já sei seu nome
Ele, o meu

Seu sorriso me abraça
Tem dois braços
Uma perna

O homem do sinal confessa:
tem depressão

Espero o verde pra seguir
Ainda no vermelho
Falo de "sol"

Sigo o caminho
Nem sempre ele está presente

Se paro e o vejo, digo seu nome
Seu sorriso repete o abraço

Por uns momentos,
Embalamo-nos na noite
E ele se permite não vender
Eu me permito a janela aberta

Entre o vermelho e o verde
A pausa pra atenção
Ao humano do sinal

(Fátima Nascimento)

E também tem uma crônica em que mencionei o homem do sinal. Veja aqui.

24 novembro 2020

Pegue a rédea da sua vida!

Sem controvérsias... Somos o que pensamos, sabemos, sentimos e o que fazemos. Quem não sabe a razão de cumprir determinada tarefa, dificilmente atingirá metas (ou mesmo terá). 

Muita gente com a vida no piloto automático. É preciso vigiar pra não se mais um. 

14 setembro 2020

2021 está logo ali

Há pouco menos de quatro meses para terminar um ano tão atípico em razão da pandemia pelo novo coronavírus, cabe aos sobreviventes desejarem que a mudança de calendário não esteja apenas representada pela nova folhinha pendurada nas paredes das casas (muitos ainda usam), nas oficinas mecânicas de automóveis e no atualizado calendário de mesa em escritórios, consultórios, bancos e repartições públicas.

No entanto, seria ilusão pensar que com a virada do ano o malfadado vírus terá ficado no passado. Enquanto não estiver disponível em massa uma vacina eficaz contra ele, haverá a necessidade de prevenção. 

A considerar o que já se observa, é notório que no ano vindouro deverá ocorrer um relaxamento por parte da população e também de governantes quanto aos cuidados para a não propagação do vírus maldito. 

E o carnaval? O povo vai preferir "se aliar" ao velho novo coronavírus para não magoar o  rei momo? Ainda que não haja os desfiles oficiais de escolas de samba e blocos carnavalescos, dificilmente os foliões deixarão de sair nas ruas fantasiados de "Alice". 

Não se pode esquecer, além do mais, que com a mudança de calendário para 2021, haverá novas gestões públicas nos executivos municipais do "país das maravilhas" e alguma renovação em Câmaras de vereadores. Ano eleitoral também atípico, com campanhas mais virtuais que presenciais. 

Enfim, 2021 está logo ali. Quem (sobre)viver verá!

entre papeis

r e s í d u o s há em todos. não se dissipa a dor (ressignifica-se).