7 de dez de 2009

Nas linhas do rosto

Depois de vinte anos voltei ao asilo que visitava no início de minha juventude. Meus cabelos ainda não estão brancos como os daquelas senhoras e nem dores no corpo me acompanham, felizmente.

Apesar dos anos somados à minha idade, fiquei contente em perceber que a sensibilidade não mudou. Evidentemente que uma maturidade me acompanha; um novo olhar sobre a velhice, uma compaixão diferente e uma sensação, quase certeza, de impotência.

Vi rostos conhecidos e deixei de ver tantos outros, mas percebi nos novos moradores características das senhoras com quem eu conversava em minhas primeiras visitas ao asilo.

Lembrei com alegria de uma antiga habitante daquele lugar – na época com 100 anos – que cantava e eu registrava a voz dela no gravador. Foi emocionante quando se ouviu cantando, sem saber que estava sendo gravada e sem enxergar o gravador, uma vez que já sem a visão.

Percorri todos os alojamentos. Vi todas as camas. Seus armários e simples pertences. Chamou minha atenção um pequeno ser debaixo de um lençol, sem que alguma parte do corpo estivesse à mostra. O tamanho era de uma criança pequena, mas, por certo, tratava-se de uma mulher bem madura. Como tive vontade de ver seu rosto...

Ao conversar com uma senhora ela se lembrou de uma música que disse ter sido proibida de cantar por causa da guerra. Uma canção que falava do Brasil – um país varonil. “Não é mais proibido. A senhora pode cantar.” E ela cantou...

Mulheres maduras na idade. Experientes na vida. Sedentas de atenção ou já isentas de vontades. E quando conversam falam de histórias tão passadas e nem todas sabem a idade que possuem. Mas os anos de vida são mero detalhe naquele celeiro de brava gente brasileira.

O Brasil da antiga ditadura, da contemporânea corrupção, da idolatria monetária não é sempre pátria gentil pra quem arduamente lutou por um sustento digno, uma moradia justa, uma educação de qualidade para seus filhos e netos. Não vi no asilo pais de marajás, nem marajás. Vejo um descaso social. A instituição em si não é culpada.

Falta a alardeada vontade política. Falta justiça social. Falta humanidade. Falta “ler” nas linhas daqueles rostos as histórias individuais e respeitá-las. E não permitir que o ponto final seja o abandono da sociedade.

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