13 abril 2011

Força oculta

                                                                        Foto: Fátima Nascimento















o olho busca
há medo e sonho
a esperança teima
e fica

nas mãos, a lida
jaz fechadas pra dor

quer-se o riso
desgosto pelo pranto

na lembrança,
o canto mudo
de ancestrais.

(Fátima Nascimento)

Obs.: Imagem da peça "Ondas da Liberdade" encenada pelo Grupo Teatropoesia Azevedo Cruz.

25 março 2011

Visão

                                                                                                Foto: Fátima Nascimento



















o olho que vê
espreita
o outro

somos vistos
nem sempre sentidos

humanos
desumanos

riso
pranto
choro

vida à deriva
ou não

leme na mão
(melhor)

somos como barcos
na imensidão das águas
ou ancorados no chão


(Fátima Nascimento)
Posted by Picasa

16 março 2011

Nova idade

Esta semana inaugurei uma nova idade. Foi no dia 14 de março. Promovi uma comemoração bem diferente da de anos anteriores (geralmente não há festa). Fui ao encontro de pessoas queridas e festejamos a vida e a esperança que nos move. Momento ímpar: oração, louvores em agradecimento a Deus, bolo, refrigerantes e até bolas de soprar e chapéus - os dois últimos foram surpresas.

Sou grata a Deus pelos anos de experiência que estão acumulados em mim. E meu desejo é que esta bagagem seja fonte de sabedoria; que o aprendizado permita que eu erre menos; que eu não queira uma felicidade sozinha, mas acompanhada de amigos, amor e familiares.

Em tempo de redes sociais, recebi inúmeras mensagens carinhosas no Orkut e Facebook, além de torpedos e telefonemas.

Tanto a agradecer... Obrigada, Senhor Deus!

Compartilho, abaixo, com os leitores do Verbo Solto um texto da escritora e poeta Cora Coralina, com sábios conselhos de uma mulher que publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade.


De Cora Coralina:
"Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo pra você, não pense. Nunca diga estou envelhecendo, estou ficando velha. Eu não digo. Eu não digo estou velha, e não digo que estou ouvindo pouco. É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.
Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida. O melhor roteiro é ler e praticar o que lê. O bom é produzir sempre e não dormir de dia.

Também não diga pra você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais. Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima.

Eu não digo nunca que estou cansada. Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica. Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então silêncio!

Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não. Você acha que eu sou?

Posso dizer que eu sou a terra e nada mais quero ser. Filha dessa abençoada terra de Goiás.

Convoco os velhos como eu, ou mais velhos que eu, para exercerem seus direitos. Sei que alguém vai ter que me enterrar, mas eu não vou fazer isso comigo.

Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes. O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade. Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor.
Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende".


(Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. Nasceu em Goiás, em 20/08/1889. Faleceu em 10/04/ 1985, aos 96 anos. Primeiro livro publicado aos 76 anos de idade).


10 março 2011

Bichos do “meu quintal”

IMG_7541

Esta rolinha bateu no vidro da janela e ficou um tempo em repouso pra se recuperar. O barulho da batida chamou minha atenção. Fui ver e não perdi tempo: registrei o acidente de percurso.

Mais fotos do ensaio “Bichos do meu quintal” você vê AQUI.

02 março 2011

Não custa perguntar

Se eu deixar um dicionário sobre o criado-mudo ele vai passar a falar?

* Da série perguntas bobas.


28 fevereiro 2011

Nossa missão




A música acima é uma oração que devemos fazer todos os dias. É um louvor que me emociona porque toca a minha alma, como um sacramento, um juramento, uma missão. Ouça, quebrante-se...

Faça a diferença neste mundo em que o individualismo é crescente e o ter tem superado o ser.

17 fevereiro 2011

Marcas do tempo


asilo_poesia
Não importa qual asilo de idosos, nele sempre haverá homens e mulheres que têm na face e na fala a marca do tempo. Não faço referência apenas às rugas ou à voz cansada, mas também a calos na memória e frases desconexas. Um deles se aproximará e contará uma estória que você não vai entender. O jeito é fingir-se cúmplice de cada palavra balbuciada sofregamente.

Estive num destes locais que abriga personagens da vida que parecem esperar calmamente pela morte. Dá pra se "ver" anos adiante e ter receio do que o tempo fará conosco. Aos 19 anos visitava com frequência os idosos dum outro asilo. Naquela época, talvez por estar mais longe da velhice, tinha um olhar diferente. Via naqueles senhores e senhoras as figuras de meus avós e não a mim em um futuro.

Adélia Prado em "O tempo", escreveu: "(...) além de velha pecava pela rejeição de sua velhice e pecava feio, aumentando-se por conseqüência e castigo em mais velhice e mais feiúra". Não rejeitar a velhice deve ser fundamental para que ela chegue moderadamente. É como se aceitar de forma gradativa. Ver as mudanças no corpo, na disposição física como reflexos do amadurecimento ou uma conseqüência natural às pessoas que acumulam anos à existência.

Assistindo a uma entrevista do grande poeta Manoel de Barros, concedida aos 90 anos, nutri o desejo de alcançar a sua idade com a mesma lucidez, sapiência e espírito jovial que ele mantém. Invejei – no bom sentido – a sua pureza. Como um homem, aos 90 anos, permanece tão lindamente puro? Não há rastro de contaminação de sentimentos, parecem inexistir pecados velados.

Embora nonagenário, Manoel de Barros tem o olhar de uma criança e suas palavras expressam este enxergar diferenciado. Encanto-me com seus poemas cheios de poesia. Ele ensina que "(...) as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes".

Se eu chegar ao clímax do amadurecimento etário, Deus permita que seja capaz de despertar em quem estiver por perto um encantamento, senão igual, ao menos semelhante. Aí poderei dizer que eu e o tempo caminhamos lado a lado e que suas marcas não me foram letais.

(Fátima Nascimento)

12 fevereiro 2011

Contos que conto

Felicidade pra presente
"O céu estava vestido de azul. As ondas do mar iam e vinham num mesmo ritmo, com calma. Uma brisa suave diferia muito da ventania que levantou a areia no dia anterior. A antítese era Leopoldo. A cada dois minutos conferia no relógio o tempo que faltava pra revê-la. A ansiedade crescia à medida que as lembranças pareciam ganhar vida (...)".


A história completa você acompanha no Verbo Solto em Contos
Clique aqui e leia. 

11 fevereiro 2011

Liberdade aos passarinhos

A prisão dos pássaros me incomoda, mas nem sempre foi assim. Tive passarinhos engaiolados quando criança e o passatempo de meu avô era "cuidar" desses bichinhos em gaiolas e manter alçapões no quintal pra aumentar a criação. Naquela época eu não tinha uma opinião formada sobre a limitação que era imposta aos pássaros. Hoje mais consciente e valorizando a liberdade do ir e vir, não ouso prender estes seres.

Prefiro passarinhos livres. Quero-os cantando, colorindo árvores, fiações e o céu. Um "querer" sozinho não pode muito, mas pode ser o começo de uma revolução nos pensamentos e atitudes. Foi assim em Fortuna de Minas, município de Minas Gerais. Uma história que vale a pena contar e vivenciar.

A população de Fortuna de Minas, após o trabalho de conscientização iniciado por um morador, desengaiolou os pássaros. A natureza deu-lhes morada nas árvores e até os postes (obra dos homens) servem de hospedagem, com ninhos contrapondo-se ao concreto.

Pássaros livres para acasalamento, livres para construir seus ninhos e buscar seu alimento. As gaiolas ficaram vazias. Fora delas estão os pássaros de Fortuna de Minas e também os homens que têm a riqueza dos pássaros. A cantoria afinada ganhou volume com o nascimento de novas aves e mais inspiração.

Assim como o poeta Manoel de Barros, eu quero "a palavra que sirva na boca dos passarinhos". Atrevo-me a afirmar que a palavra liberdade é uma delas.


* Texto inicialmente publicado no Jornal Monitor Campista em 20/05/2008.

entre papeis

r e s í d u o s há em todos. não se dissipa a dor (ressignifica-se).