22 de abr de 2006

Deixe a janela aberta


Gosto de janelas. Nada a ver com o material de que são feitas, mas sobre o que se pode ver através delas. Nada a ver também com bisbilhotar a vida alheia. Sou do tipo que observa todos os quadrantes. Vejo o céu, as nuvens, seus desenhos imaginários. Fico feliz quando avisto aves, mesmo que sejam urubus. Quando me concentro no quadrante inferior, olho as árvores, pássaros nelas, folhas verdes ou o sinal de que o outono chegou. Verifico o que mais há nas calçadas. Se estão sujas, limpas, com ou sem mato. Alegro-me quando encontro crianças com bolas-de-gude, pipas ou brincando de amarelinha.

O passeio visual continua. Olho para um lado, para o outro. Percebo quando há uma discussão mais inflamada ou quando alguém remexe as lixeiras procurando pelo resto de alguma coisa que possa amenizar sua miserabilidade. Aí eu me escondo. Não desejo constranger. Vejo cachorros nas ruas. A lata de lixo não é apenas deles.

Muitas janelas podem ser usadas como camarotes vip. Através das do trabalho visualizo “flanelinhas”, pessoas que passam rápido demais ou vagarosamente. Homens com terno e sem terno; mulheres muito ou pouco arrumadas. Carros modernos, clássicos, antigos e novos. Estudantes adultos e estudantes adolescentes. Crianças sem escola que apelam para a compra de guloseimas. Outros humanos a quem chamamos mendigos ou pedintes, que geralmente são inconvenientes na insistência por algum trocado. Um mesmo planeta com lados opostos.

Impossível esquecer de uma cena que vi há muitos anos, quando eu estava do outro lado da janela, do lado de fora. Era uma criança que dava os últimos suspiros de vida. A janela da casa dela estava aberta e quem quis viu que a fome e a desnutrição podem ser fatais.

Há momentos em que a vontade é de fechar a janela. Mas seria uma auto-enganação. Pode ser covardia viver no escuro todo o tempo. Melhor encarar. Melhor enxergar. Melhor atirar-se na vida, mesmo que haja uma tempestade lá fora ou no interior de outras janelas ou dentro de nós mesmos. Mantenha os olhos atentos e permita que o coração chore ou sorria. Depois, aja com sabedoria.


Texto e foto by Fátima Nascimento - Jornal Monitor Campista, 2º Caderno, 04/04/2006

2 comentários:

Moacir Caetano disse...

sempre fui apaixonado por janelas...
a maioria de minhas fotos são tiradas da minha janela...
o mundo em minha tela!

Zeca disse...

Eu também tenho essa predileção pelas janelas, preferencialmente abertas, para que, além de toda a vida que podemos ver através dela, também a recebamos pela luz do sol, ou da lua. As minhas janelas são o meu palco, e eu sou a platéia do ato que se desenrola fora delas. Daí o nome do meu blog: Janelas Abertas.