24 de out de 2010

Nossas bagagens

Ao longo da vida tenho acumulado experiências bacanas. Cada coisa que acontece eu coloco no armário da memória. O que vale a pena ser lembrado e necessário reviver eu ponho nas prateleiras mais baixas, pra facilitar o meu acesso (hábito de gente pequena). O que causou dor e prefiro não lembrar, fica no alto, distante de minhas mãos e encaixotado.

Um episódio recente fez-me lembrar de algo que está na prateleira de cima. Peguei a escada e abri a caixa, desembrulhei e olhei para aquele acontecimento passado. Mas não doeu, não dói mais. Superei. E me regozijei ao lembrar que fui vitoriosa. Ficou uma lição e tanto. Graças ao aprendizado e maturidade, o que aconteceu agora não me abala, apenas me deixa indignada. Vencerei mais uma vez. Quiçá tenha acontecido pra eu colher bênçãos maiores.

Eu creio que Deus usa as pessoas pra falar com a gente. Estava andando na rua e um homem bem incomum nos trajes e fisionomia, olhou pra mim e disse que deveria agradecer a Deus por eu ter passado ao lado dele e ele ter a chance de me olhar. À medida que ele andava, e eu diminuí o passo pra entender, falou palavras bonitas sobre amor, trabalho, coração, tirar a dor do peito. Ele foi pra lá, eu pra acolá. Ambos desejando a presença de Deus na vida um do outro. Vi no rosto daquele homem o sofrimento estampado, mas seus olhos 
vestiam a esperança.

Gosto quando o vendedor de guloseimas no sinal fala meu nome e eu falo o dele e a gente se sorri. Gosto quando uma pessoa que atendi no trabalho passa ao meu lado e me cumprimenta com alegria e ainda mais quando tenho uma boa notícia pra lhe dar. Amo os olhares ternos em minha direção numa reciprocidade ao afeto que lhes tenho. Sei quando vêem a mulher e quando vêem a menina. Sei quando tudo isso se mistura e se confunde. Sei que nem sempre posso confiar nos homens, mas fico contente quando percebo que valeu a pena acreditar.

Todos nós – penso eu – devemos escolher uma bandeira pra carregar ao longo da vida. Nos desfiles de sete de setembro está a bandeira do Brasil. Uma vez por ano ela se faz presente na passarela, mesmo que quem a carregue não tenha qualquer orgulho ou admiração pelo seu país. Cumpre-se a missão de levar a bandeira e só.

Mas sobre a bandeira da qual falo não pode ser assim. É uma escolha pessoal, independentemente de país de nascimento. Tem a ver com nosso ideal. Tem a ver com nossos sonhos.

A minha bandeira - descobri – é a da “humanidade”. E mesmo que ajam com desumanidade, inclusive em relação a mim, preciso continuar com a minha bandeira, desfilando em todos os lugares e momentos, num basta à desumanização que afugenta nossos sonhos e tenta nos tornar “máquinas”.

O armário da memória está bem cheio, mas organizado e controlado. Há ainda espaço pra mais aprendizado.

2 comentários:

Marcos Oliveira disse...

Boa crônica, Fátima.
Gostei. Parabéns!

Fátima Nascimento disse...

Marcos, obrigada pela presença. Volte muitas vezes... Abraços.